POLITICAVOZ: Nosso terrorismo eficiente.

Preciso dizer uma verdade dolorosa: não precisamos temer os terroristas. Nós, brasileiros, temos condições de produzir, com eficiência, nossa própria destruição. Essa afirmação é irônica, mas também preocupante. O Brasil, que se tornou um dos paises mais importantes e prósperos do mundo, continua com a mania de empurrar sujeira para debaixo do tapete, escondendo muitas vezes uma incapacidade de cuidar do que é público e agindo de forma insana pelo privado. No momento a discussão passa pelos prédios no Rio de Janeiro: quantos culpados para um mesmo acidente?

Em qualquer lugar do mundo, grupos terroristas estariam se vangloriando do acontecimento: O grupo tal se diz autor do desastre. No Brasil, o prédio caiu e não se sabe o culpado. Seria um prego mal colocado na parede? Uma coluna removida sem a devida observação de segurança? Seria o Estado que não soube fiscalizar de forma correta as construções dentro do seu território? Os grupos que fazem o terror no Brasil são grupos desarmados, muitas vezes dóceis e socializados. Seremos agentes do nosso próprio terrorismo enquanto optarmos por ações irresponsáveis.

E ficamos chocados com as mortes, com as perdas, com as histórias dos sobreviventes. Um saiu mais cedo, outro esqueceu do compromisso. Um prédio caiu e com um efeito dominó levou para o chão outros dois. O que fez o prédio cair? Uma investigação rigorosa, talvez uma C.P.I. quando descobrirem que tal assessor de tal vereador tinha um andar alugado para suas bases políticas (nessa hipótese descobriremos que o político não tem relação nenhuma com o acidente, mas com certeza será o bode expiatório). E assim vamos caminhando, sempre querendo encontrar o verdadeiro culpado, mas não sabendo a melhor maneira da condená-lo.

Um tablóide inglês colocou em dúvida nossa capacidade em realizar a Copa e posteriormente as Olimpíadas. É verdade: é impossível dizer quantas pessoas na Cidade Maravilhosa colocam pregos em lugares errados, ou tiram colunas sem avisar o síndico. Chamem o síndico, dizia a música. Mas o problema não é do síndico, nem do dono do martelo. Somos culpados em sempre querer fazer as coisas proibidas como se fosse nosso direito. O tal jeitinho, que de criativo pode se tornar irresponsável. O prédio não era público, mas era propriedade de muitos: decidir uma arrumação no andar sem que fosse permitido tornou-se uma coisa comum, passageira e corriqueira (e muitas vezes perigosa).

E adoramos burlar a lei com nossos pequenos delitos. Pensamos em maneiras de enganar nossa embriagues nos bafômetros. Adoramos furar uma fila. Adoramos desrespeitar os idosos com seus lugares específicos nos metrôs. Claro que estou sendo genérico (o que exclui a culpabilidade dos educados); mas não deixa de caracterizar (de forma irreal e débil) o que vemos em nosso povo: O “jeitinho” é uma idéia presente em nossa cultura, mas o seu abuso distingue um grupo pequeno de pessoas.

Pois nós, brasileiros, não somos assim. Somos corretos, justos e caridosos. Somos emotivos, alegres e sociais. Somos um povo com uma história nova, mas por uma diversidade especial. Nós brasileiros seremos (e começamos a ser) referência para outros povos, para outros governantes. A forma como pensamos, encaramos os problemas, como decidimos comemorar nossos dias de folga; como amamos a natureza. Esse é o povo brasileiro, que estimula o “jeitinho” para anular nossas deficiências, nossa escassez. Temos nossos defeitos, como todos; mas temos inúmeras qualidades.

O Brasil de hoje não quer mais alimentar o “jeitinho” terrorista. De bêbados no trânsito cortando o caminho para fugir da blitz. De achar que o público é privado de uso exclusivo. Do terrorismo “carteira oficial” do “sabe com quem está falando?”. Esse terrorismo velado que não se forma do ódio, mas carrega tanta irresponsabilidade. Terrorismo dos corruptos que destroem leitos de hospitais e cadeiras escolares. O terror do descaso com as crianças e os drogaditos que não sabem para quem pedir ajuda. Queremos o fim desse nosso terror eficiente que se esconde em nossas ações que parecem inocentes, mas também destruidoras.

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